1º quadrimestre de 2026

A chamada fase orgânica, que se estende de 1966 a 1970, compreende a série “Habitáculos”, já mencionada em boletim anterior, além de uma sequência de esculturas intitulada “Bichos”e de peças isoladas como “Coluna” e “Três Colunas”, “São Francisco”, “Anjo”, “Mistério”, entre outras.

Após a consolidação da fase abstrata, Felícia Leirner alcança, nesse período, um momento de síntese em sua trajetória artística. A artista passa a experimentar novas relações entre forma, matéria e espaço, realizando suas obras em cimento branco armado sobre estrutura de ferro.

As curvas substituem as linhas rígidas exploradas na série Cruzes de 1963. O peso do material é suavizado pelo contraste entre cheio e vazio, interior e exterior, características que levaram o crítico Frederico Morais, no livro “A arte como missão” (1991) a identificar nessa fase uma expressividade barroca, não como estilo formal, mas como atitude estética. Segundo o autor, trata-se das “esculturas mais sensuais jamais realizadas pela artista” (Morais, 1991, p.94).

Assim como no barroco, as obras desse período são dinâmicas, tensionadas, abertas ao movimento e à transcendência. Entre elas destacam-se “Três Colunas” (1966/67), variações da torsão barroca e da coluna salomônica, e o “Anjo” (1969), forma alada que revela um sentido de monumentalidade.

Na série seguinte, a dos “Bichos” (1966/70) e de grupos familiares, Felícia substitui o leve pelo pesado, as formas vazadas por volumes compactos e os espaços internos por simples perfurações no bloco maciço, trocando, enfim, a sensualidade por um tom irônico e lúdico.

No contexto do Museu Felícia Leirner, em meio à paisagem de Campos do Jordão, essas esculturas ganham uma dimensão ampliada, pois dialogam diretamente com o ambiente natural e convidam o visitante à contemplação. Como observa o crítico, “uma poderosa energia interior faz com que suas esculturas pareçam maiores do que verdadeiramente são e, em sua expressão vital, sublimam a própria matéria de que são feitas” (Morais, 1991, p.95).

Referencias

MORAIS, FREDERICO. Felícia Leirner: a arte como missão. Campos do Jordão: Museu Felícia Leirner, 1991.