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A sensibilidade poética de Felícia Leirner

Boletim 21 | Março 2020 | 1º trimestre

“O barro se faz forma. Forma que vibra no coração da terra com a visão do artista e a pulsão da criatura, que esculpiu o sopro de sua vida, a vivência de seu espírito e a emoção do ser”. 

Felícia Leirner

Para dar início ao ano de 2020, o Boletim para Educadores quer apresentar mais uma faceta pouco conhecida da artista Felícia Leirner, que além de ter se transformado numa das grandes escultoras brasileiras, certamente possuía uma sensibilidade apurada para todo o universo artístico. Assim, abordaremos nesse texto a habilidade poética da patronesse e, ainda, as ações educativo-culturais realizadas pela equipe de educadores a partir do livro Felícia Leirner: Textos Poéticos e Aforismos.

 “A descoberta do manuscrito de Felícia Leirner deu-se em 2002, seis anos após seu falecimento, quando Sheila Leirner, neta primogênita da autora, lembrou a família de que o centenário de seu nascimento aproximava-se. 

(…) Embora nunca tivesse sonhado em publicar os seus textos, que considerava ‘íntimos’, o sonho interior de Felícia era ser escritora”. 

O trecho acima foi retirado da Nota da Edição do livro Felícia Leirner: Textos Poéticos e Aforismos – uma compilação das anotações poéticas da artista ao longo de sua vida. Por meio desse livro, pode-se conhecer mais sobre as percepções de Felícia em relação a diversos temas. Os textos e as poesias revelam, por exemplo, o seu amor por Campos do Jordão, suas reflexões sobre as artes, sua relação de carinho e respeito com os animais, sua visão de Deus e sua fé, autobiografias mínimas, além de textos de sua filha Giselda Leirner e sua neta Sheila Leirner. 

Para dar visibilidade a essa produção, criando novas possibilidades de interpretação de suas obras visuais, a equipe escolheu em meio aos jardins do Museu Felícia Leirner, uma árvore que pudesse abrigar diferentes poemas e textos poéticos. A ação iniciada em 2015 buscava, ainda, incentivar a leitura, estando atrelada a outras ações complementares, como a campanha de distribuição de livros “A cada livro perdido, um leitor encontrado”, que permanece vigente até os dias atuais, tanto pelo sucesso junto aos visitantes e munícipes, quanto pela pertinência do tema. Essa árvore – carinhosamente intitulada “Pé de Poesias” – recebeu, inicialmente, poemas e textos poéticos da escultora Felícia Leirner, sendo posteriormente acrescentados textos de outros autores. A interação dos públicos com este recurso educativo complementa a experiência vivida no Museu, revelando grande coerência no estabelecimento de diferentes possibilidades de abordagem das obras e da coleção. Vale lembrar, ainda, que buscando incrementar a acessibilidade dos conteúdos, algumas poesias de Felícia foram confeccionadas em tinta e em Braile, permitindo acesso a pessoas cegas e com baixa visão. 

O material encontrado no livro também serviu como base para o desenvolvimento de outras ações educativas, ofertadas esporadicamente em nossa programação cultural e disponíveis para serem realizadas junto a públicos agendados. Conheça, abaixo, duas das ações que relacionam o conteúdo do Museu e Auditório com a literatura, podendo ser realizadas de acordo com interesse dos grupos, no ato do agendamento. 

Os dois lados de Felícia: 

A atividade consiste em uma visita educativa que relaciona as esculturas da coleção às poesias da artista Felícia Leirner. Dessa forma, a partir das obras da escultora, são escolhidos alguns temas principais, como maternidade, família e natureza. Ao longo da visita, o educador promove um “diálogo” entre as obras da coleção e poesias selecionadas do livro, oferecendo aos visitantes uma perspectiva aprofundada da poética da artista. No decorrer da atividade, o público é estimulado a manifestar seu lado poético construindo coletivamente uma poesia “às escuras”, na qual cada participante cria uma estrofe sem conhecer as demais. Ao final, são lidas aleatoriamente pelo grupo, resultando em uma expressão autêntica do coletivo. A ação promove, portanto, um olhar diferenciado e aprofundado sobre a coleção e a artista, estimulando, paralelamente, o hábito da leitura e da interpretação de textos poéticos. 

Cordel da Felícia Leirner

Compondo as atividades relacionadas ao universo artístico e literário, a equipe de educadores redigiu um texto em formato de Literatura de Cordel que conta, de maneira divertida e lúdica, a trajetória pessoal e artística da patronesse. A ação é complementar às visitas educativas e busca promover esse gênero literário – tão específico de nosso país, tornando o conteúdo mais acessível e significativo para públicos de idades e contextos diversos. 

Para concluir esse Boletim, destacamos o caráter multidisciplinar de todas as ações criadas e executadas pela equipe de educadores do Museu e Auditório, num esforço permanente para aprimorar as possibilidades de interação e acesso aos conteúdos por parte de um público altamente diversificado. Assim, busca-se atualizar o conceito de Museu, transferindo a perspectiva de espaço exclusivamente disseminador de saberes para uma perspectiva mais contemporânea, na qual o diálogo e a troca de conhecimentos ganham centralidade nas ações, tornando os espaços “vivos” e atraentes e fazendo que o patrimônio seja compreendido como algo em constante construção e transformação, estimulando o posicionamento crítico e indagador, capaz de transformar realidades pessoais e coletivas. 

Vale lembrar, ainda, que as ações acima descritas são apenas ilustrativas de uma gama extremamente ampla de atividades executadas junto aos visitantes. Para os professores e educadores interessados, destacamos a possibilidade de adequação de nossos conteúdos (artes visuais, música e meio ambiente) às necessidades de cada grupo. Ao entrarem em contato conosco para o agendamento de visitas educativas, lembrem-se da possibilidade de conversar diretamente com um de nossos educadores buscando alinhar perspectivas de acordo com as nossas possibilidades. 

Referência Bibliográfica:

Felícia Leirner: textos poéticos e aforismos/ organização J. Guinsburg e Sergio Kon – 1. Ed – São Paulo: Perspectiva, 2014.