Boletim 07 | Setembro 2016 | 3º trimestre

“Na educação de uma criança no contexto da inclusão é preciso criar suportes e criativos aportes para fazer travessias significativas pelo fio do conhecimento”
Simone Helen Drumond Ischkanian
A manutenção do Boletim para Educadores se justifica pelo desejo de estabelecermos mais um mecanismo de diálogo e interação com a comunidade, tornando visível o trabalho realizado pela equipe de educadores do Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro. Associadamente, buscamos elucidar aos interessados as diretrizes e perspectivas adotadas no trabalho, além de motivar à visitação e interação qualificada com os equipamentos culturais. Destacamos que já foram assunto desse boletim as diversas possibilidades de roteiros educativos realizados, oficinas e atividades práticas nas temáticas dos equipamentos culturais, ações e proposições educativas para diferentes finalidades, além de outras curiosidades sobre o trabalho da nossa equipe.
No presente boletim apresentaremos alguns dos materiais concebidos e produzidos pela equipe de educadores, com o objetivo de ampliar as possibilidades de interação do público com os conteúdos abordados. Para tanto, faz-se necessário trazer à tona a perspectiva da multissensorialidade, adotada pela equipe como diretriz pedagógica para a elaboração de quaisquer atividades e proposições educativas. Tal perspectiva traz para o âmbito da educação a diversificação dos meios de acesso ao conteúdo, ao deslocar a tradicional supremacia (ou exclusividade) da visão como canal de acesso e interpretação do meio. Desta forma, ao apresentar o mesmo conteúdo de maneiras variadas, objetiva-se ampliar as possibilidades de acesso valorizando as habilidades específicas de cada indivíduo ou grupo, permitindo com que possam realmente se apropriar dos novos conhecimentos.
No trabalho desenvolvido pela equipe de educadores do Museu e Auditório, a busca por parcerias significativas pressupõe a qualificação continuada e o real interesse pela diversidade, o que permite o aprimoramento contínuo das técnicas e estratégias de mediação. Assim sendo, descreveremos abaixo alguns dos materiais elaborados pelos educadores ao longo dos últimos anos, com ênfase na temática das Artes Visuais. Cada um deles foi criado em respeito às dificuldades e habilidades de públicos específicos, sempre com o objetivo de melhorar a qualidade de sua interação com os conteúdos abordados em nosso em trabalho cotidiano: artes visuais, música e meio ambiente. Acenamos que os materiais voltados à mediação de conteúdos ligados à música e ao meio ambiente serão tratados em boletins futuros.
O trabalho desenvolvido com os grupos de pessoas com deficiência é um grande fomentador do aperfeiçoamento contínuo da equipe. Os desafios enfrentados na mediação de conteúdos com esses públicos geram a motivação necessária para o estudo e criação de novos materiais de apoio, capazes de tornar as interações mais significativas. Foi do contato com estes públicos que a criação de um boneco articulável ganhou corpo dentro do nosso trabalho. O boneco tem relação direta com a fase figurativa do trabalho da artista Felícia Leirner, em que a sua poética está voltada para o tema do ser humano, com formas alongadas e com a predominância do bronze como matéria prima para as esculturas. Com o objetivo de trabalhar o corpo humano como forma de expressão, explorando as várias poses e “desenhos” que o corpo adquirir, o boneco foi criado com cerca de 1,20m de estatura e com uma estrutura em arame fino, completamente revestido por manta acrílica.
Buscando uma maior semelhança com a obra original, optou-se pelo revestimento em malha elástica cinza. No trabalho com os grupos, o material é utilizado de diferentes maneiras, variando as proposições e desafios de acordo com os interlocutores; e recaindo a sua especificidade sobre a possibilidade de manipulação e concretização de uma ideia ou conceito. Em outras palavras, o “bonecão” é capaz de traduzir uma ideia visual (a escultura em si) em uma experiência tátil e concreta, permitindo uma interação segura e significativa.
Ao trabalhar a fase abstrata da coleção de esculturas de Felícia Leirner, a equipe decidiu pela elaboração de miniaturas em diferentes materiais que, ao proporcionarem reações táteis distintas, tornam a experiência mais rica, favorecendo a consolidação de novos conteúdos. A opção por trabalhar prioritariamente com a escultura “Recortes na Paisagem”, utilizada na logomarca do Museu, é proposital e busca o estabelecimento de mecanismos de fixação e absorção de conhecimentos. Ao utilizar o recurso da repetição, buscamos favorecer o reconhecimento de uma ideia, principalmente pelo público com deficiências intelectuais. Apresentamos abaixo uma miniatura criada em biscuit e outra criada em feltro, ambas na cor branca, favorecendo a identificação com a obra original.
Para concluir, apresentaremos mais um material criado pela equipe e cujos objetivos assemelham-se aos já apresentados: reconhecimento e exploração tátil com intuito de ampliar as formas de acesso a um mesmo conteúdo. A este material, no entanto, foi adicionado um recurso sonoro que visa tornar a experiência ainda mais significativa. Ao agregar um novo elemento sensível, ampliamos os canais de acesso ao conteúdo e expandimos, natural e consequentemente, as possibilidades de absorção por parte dos indivíduos. O cubo foi criado a partir de elementos do cotidiano: papelão, algodão, plástico bolha, miçangas, lixa etc. e, em seu interior, um guizo. As texturas permitem as mais variadas sensações e reações, sendo agradáveis ou desagradáveis para cada um dos indivíduos, de acordo com as suas experiências prévias. O toque também pode produzir, além de sensações, sons específicos. E é a somatória de todas as sensações e reações que permitem uma experiência significativa e mais duradoura.
Destacamos, ainda, que embora esses materiais surjam do contato e experiência com os grupos de pessoas com deficiência, sua aplicação é extremamente enriquecedora para qualquer grupo de visitantes. Ao ampliar as formas de acesso ao conteúdo acabamos por contemplar, igualmente, diferentes preferências e gostos pessoais, o que naturalmente contribuirá com a qualidade da experiência e absorção de conteúdo. Por isso, a pesquisa realizada pela equipe de educadores é contínua e avança paulatinamente à medida que novos desafios se apresentam. Vale lembrar, que estamos sempre em busca de novas interlocuções e abertos ao diálogo, de forma que possamos criar bases sólidas e bem fundadas para o trabalho qualitativo com públicos diversos, sem abrir mão da possibilidade de trabalhos individualizados. Ao criarmos as condições necessárias para focar nas necessidades de cada grupo, levando em conta as suas dificuldades e habilidades, mantemos o foco na melhoria contínua de nossas práticas e nos tornamos cada vez mais efetivos no cumprimento de nossos objetivos e missão.







