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Série Bichos: desafios na conservação e poética da artista

Em nossa última edição do Notícias de Acervo falamos sobre a série de esculturas denominada Recortes na Paisagem. Criada especialmente para compor o jardim do Museu Felícia Leirner, ela congrega aspectos fundamentais da poética da artista revelando a sua forte ligação com a temática da natureza e evidenciando a intenção genuína de relacionar as suas criações escultóricas com a paisagem local. A série Recortes na Paisagem agrupa, portanto, esculturas de traços finos com grandes fendas que permitem a passagem de luz, criando jogos de luz e sombra que dependem exclusivamente da natureza, apresentando aspectos variados de acordo com a incidência de luz solar e com as próprias transformações da paisagem nas diferentes estações do ano.

O tema de nossa edição atual é a série de esculturas Bichos, composta por oito obras de cimento branco armado com ferro. Criadas ao longo da década de 1970, possuem estruturas robustas – em contraponto à série Recortes na Paisagem, criada posteriormente – e formas arredondas que brincam com a imaginação do observador, dando liberdade ao visitante para dialogar com as formas de acordo com seus repertórios individuais, suas emoções e estados de espírito, possibilitando diferentes interpretações a cada nova interação. Muito embora as obras já apresentem fendas e vazados que sugerem uma interação com a luz e paisagem locais, elas ainda não se tornaram o discurso central da poética da artista. São, em síntese, formas orgânicas que evidenciam o seu olhar amoroso para os animais – característica que parece ter permeado a sua vida, sendo igualmente revelada em seus poemas, fotografias pessoais e, curiosamente, em seu próprio nome de batismo, originário da língua ídiche: Fayga, que significa pássaro.

A série Bichos, ao contrário das demais que compõem o acervo, está espalhada por diferentes espaços do Museu Felícia Leirner, seguindo curadoria da própria artista. Para finalidade de manutenção do estado de conservação das obras, é válido destacar que, por este motivo, os desafios enfrentados nessa série são amplos e envolvem cuidados diversificados, que se definem de acordo com a realidade do ambiente que a abriga cada uma delas.

A obra Bichos – homônima à série – fica localizada no interior de um jardim de inverno situado no foyer do Auditório Claudio Santoro, criando uma belíssima interação entre os dois equipamentos culturais. Essa área expositiva constitui-se, portanto, num ambiente úmido e com baixa incidência de luz solar, propício ao desenvolvimento rápido de fungos e proliferação intensa de insetos. A escultura O Bicho também está instalada em local diferenciado. Situada ao final da escadaria principal do Museu, ladeando o Auditório, a escultura está cercada por árvores grandes e antigas, o que torna o ambiente mais arejado, porém, ainda assim, com baixa incidência luz solar, provocada pelas copas das árvores. Esta condição expositiva permite a maior incidência de sujidades na escultura, como folhas, frutos, dejetos de pássaros e proliferação acelerada de fungos, exigindo igualmente o acompanhamento atento de suas condições.

As outras seis obras ficam agrupadas próximas às alamedas do Museu, em uma área com grande incidência de luz solar e vegetação rasteira, o que torna os procedimentos de manutenção mais sucintos e menos complexos, com retardamento dos processos de deterioração dos materiais constituintes das obras. Vale lembrar que, embora não exijam intervenções constantes, as obras estão igualmente integradas aos procedimentos de monitoramento permanente pelas equipes responsáveis.

É assim que destacamos, mais uma vez, a importância da integração de todos os saberes do Museu – que envolvem tanto os conhecimentos técnicos de conservação de acervos, quanto os significados poéticos e etapas históricas da produção da artista e da constituição do acervo – para a realização de um trabalho de conservação responsável e comprometido. Destacar as missões de conservação, pesquisa e comunicação dos museus com a intenção de preservação do legado artístico e do patrimônio construído pela humanidade faz-se, ainda, necessário para trazer luz à responsabilidade social dessas instituições na vida das comunidades que as abrigam.

Acredita-se, portanto, no potencial emancipador que a interação qualitativa e o reconhecimento do patrimônio possam trazer à vida dos indivíduos, comunidades e sociedades. Assim, imprimir excelência em todo os procedimentos de gestão do acervo significa atender com responsabilidade à missão do Museu, entregando à sociedade a possibilidade de desfrutar com qualidade daquilo que lhe pertence e experimentar a Cultura em sua plenitude!

 

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