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Recuperação de obras de arte como suporte à memória histórica: destaques da coleção do Museu Felícia Leirner – Moldura

Qualquer visitante que chegue pela primeira vez ao Museu Felícia Leirner hoje irá se deparar uma vasta coleção de esculturas da artista visual em apurado estado de conservação. Muito provavelmente, não lhe ocorrerá nenhum pensamento sobre como teriam as esculturas atravessado o tempo e enfrentado quase quarenta anos de intempéries e ação humana sem se perderem na história.

Nem sempre foi assim. As esculturas não teriam sobrevivido sem a ajuda de pessoas interessadas e manter o patrimônio e, principalmente, sem a ação estruturada de especialistas em restauro e conservação. Serenidade e técnica precisa são qualidades fundamentais para trazer novamente as obras de arte castigadas pelo tempo e pela má conservação à sua melhor forma. O olhar aguçado e  aprofundamento em estudos interdisciplinares guiaram a ação desses profissionais.

Um restaurador-conservador não é o artista criador da obra, mas, na prática, seus cuidados técnicos, minúcia e esmero na interrupção de processos de degradação e resgate da leitura original o colocam no papel de destaque. Foi assim quando, em 2008, os conservadores-restauradores do escritório Julio Moraes chegaram ao Museu. O estado degradado das peças de arte da coleção exigiu paciência e muito conhecimento técnico para serem, aos poucos, recuperadas. Pesquisar a artista e seu processo de produção, compreendendo as técnicas por ela empregas na constituição de cada obra, resumiu os primeiros encaminhamentos para o trabalho.

Iniciando esta série, será apresentado de forma sucinta o processo de restauro e recuperação de uma escultura bastante apreciada pelo público: Moldura. Ela faz parte da última fase da artista e foi criada em 1982, no espaço do próprio Museu. Revela, por si, uma poética tão própria da Felícia, qual seja a de relacionar as suas criações plásticas ao meio natural circundante, criando conexões concretas e simbólicas entre esses dois campos. A técnica empregada é a de argamassa armada e resulta do amadurecimento do trabalho artístico de Felícia Leirner com esse material.

A obra, que originalmente emoldurava uma pequena árvore, sofreu ao longo dos anos várias intervenções externas, provavelmente resultantes de quedas de galhos e da ação humana, tendo sido observado, inclusive, intervenções criadas a partir de outas técnicas que não a originalmente utilizada. Na avaliação inicial da equipe de restauro, levantou-se as seguintes observações: obra com elementos fora do prumo; grande proliferação de microrganismos na base da escultura; fissuras generalizadas provocadas por acomodação e dilatação proveniente da oxidação de estruturas metálicas internas; exposição da estrutura metálica interna por força das rachaduras antes mencionadas; diversas camadas de policromia superpostas, inclusive com o uso de massa corrida e tinta à base de PVA (látex); base de alvenaria avariada, com partes quebradas e faltantes.

Diante de tal avaliação, acrescida do estudo das imagens antigas (fotografias da própria artista), a equipe definiu o trabalho de recuperação por etapas. Primeiramente decidiu-se pela recuperação do primeiro requadro, situado mais à frente, onde foram ampliadas a parte inferior da estrutura, reduzida com o passar do tempo, e refeitos os ângulos retos que teriam se descaracterizado desde a sua criação. O segundo requadro precisou ser desmontado para ser realinhado, além de terem sido refeitos os ângulos retos  e a base de alvenaria. Na segunda etapa foram obturadas as rachaduras com argamassa cimentícia aditivada com resina acrílica; tampadas as fissuras com o uso de pasta de cal hidratado; eliminado manualmente todos os microrganismos e vegetação; e aplicado biocida para inibir a proliferação de novos microrganismos. Por fim, a obra recebeu tinta à base de silicato de potássio e a base de concreto do primeiro requadro foi reconstituída.

Após a recuperação, o que se define muito claramente é o procedimento de manutenção preventiva, que deve ser observado com rigor e sistematicamente de forma a inibir a ação degradante, evitando novos procedimentos e intervenções drásticas na obra. Destacam-se a necessidade de vistoria detalhada com intervalos máximos de uma semana; limpeza constante e cuidadosa com retirada de água e resíduos acumulados; reaplicação de biocida sempre que necessário; e o controle e poda frequentes da vegetação circundante, evitando a queda de galhos e a consequente avaria da obra.

Vale lembrar que as variações de temperatura e a umidade são agentes externos que provocam movimentação dos materiais, ocasionando pequenas fissuras em intervalos de tempo relativamente pequenos, o que nos aponta novamente para a necessidade de um acompanhamento constante e do tratamento prematuro com vistas a evitar o agravamento de pequenas ocorrências.

Para concluir, lembramos a especificidade da conservação de coleções expostas à céu aberto – tema já trabalhado em artigos anteriores – e o compromisso com a preservação do patrimônio material, respondendo a uma das premissas mais conhecidas em relação ao papel dos Museus na sociedade, qual seja o de conservar a sua coleção promovendo a sua divulgação junto à sociedade. Tal premissa desdobra-se em muitos outros compromissos e possibilidades, não podendo ser ignorada ou esquecida em nenhum momento da história, pois dentre outras definições pertinentes, o patrimônio material de uma comunidade é o testemunho de sua história, e fornece material de importância incontestável para a compreensão de quem somos hoje e para onde desejamos caminhar.

 

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