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Conservar para lembrar: Nosso patrimônio material é a nossa grande memória histórica

No primeiro “Notícias de Acervo” do ano divulgaremos uma entrevista realizada com dos conservadores-restauradores responsável pela manutenção da coleção do Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro: Claudemir Ignácio. O especialista faz parte da equipe do ateliê Julio Moraes de Conservação e Restauro, onde é responsável técnico pelo restauro e conservação de esculturas de grande porte, obras de arte em metal e pintura mural.

O profissional é graduado em Artes Plásticas pela PUCCAMP – Pontifícia Universidade Católica de Campinas, especializou-se em restauro de obras de arte e objetos metálicos no Centro Nacional de Conservacion Restauracion y Museologia, em Havana (Cuba), e trabalha na manutenção da coleção da instituição há mais de sete anos.

Confira na entrevista alguns aspectos importantes sobre a coleção de esculturas do Museu Felícia Leirner, bem como a relevância da preservação de nosso patrimônio material, pela visão de especialista:

 

MFL: Quais as diferenças mais significativas na conservação de coleções expostas a céu aberto e coleções expostas em ambientes fechados? 

Claudemir: Coleções expostas em ambientes fechados podem ser melhor monitoradas quanto ao controle de temperatura, umidade, pragas e acesso de pessoas. Já em ambientes a céu aberto, o controle fica muito limitado. Além disso, existem ocorrências mais difíceis de manter como o acesso de insetos, fungos e animais tanto domésticos quanto silvestres, assim como, no caso específico do Museu Felícia Leirner, os riscos adicionais do meio ambiente (queda de árvores, frutos etc.).

 

MFL: Quais os maiores desafios na conservação da coleção pertencente ao Museu Felícia Lerner?

Claudemir: Além dos já citados acima, em Campos do Jordão e, especialmente onde está localizado o Museu, as variações de temperatura e umidade no decorrer de um mesmo dia são muito acentuadas, provocando movimentações constantes da armadura metálica das obras em argamassa, o que causa fissuras e a proliferação acelerada de colônias de microrganismos, com suas derivações patológicas (rachaduras, oxidação da armadura metálica com perda de material etc.). Nas obras em bronze, a umidade acentuada e os  dejetos  de pássaros e insetos provocam perda localizada na pátina, causando interferências visuais significativas.

 

MFL: Como as diferentes equipes de um Museu podem contribuir positivamente para a preservação de suas coleções?

Claudemir: Cada uma das pessoas que trabalha em um museu pode contribuir de diversas formas para a preservação de uma coleção, tanto criando e mantendo hábitos de cuidado e atenção contínua ao acervo, contribuindo assim com a sua conservação preventiva, quanto junto ao público que inadvertidamente, às vezes até por apreciar o museu, acaba por agredir e criar outros riscos à coleção. Também por meio do seu trabalho especializado, evidentemente, seja ele qual for dentro da instituição. 

 

No Museu Felicia Leirner esse cuidado já se faz naturalmente quando, por exemplo, a equipe de jardinagem elimina os resíduos da vegetação circundante e mantém o tapete vegetal ao redor das obras, evitando assim o acúmulo de sujidade e, ainda, que tanto os pássaros quanto outros pequenos animais utilizem as obras como moradia, além de evitar que as sujidades provocadas pelas águas das chuvas e do solo expostos manchem e ou sujem as obras.

 

A equipe dos educadores também ajuda muito quando orienta os frequentadores quanto ao nível ideal de interação com as obras, sem que haja prejuízo das mesmas. As equipes de acervo e manutenção, por sua vez, evitam o acúmulo de água pluvial nas reentrâncias das obras, principalmente nas em argamassa, e reportam imediatamente qualquer ocorrência significativa, o que é particularmente importante e determinante num processo de manutenção preventiva.

 

MFL: Como o material constitutivo de uma obra de arte pode influenciar no seu processo de conservação?

Claudemir: A escolha dos materiais influencia quase que determinantemente o processo de conservação. Tomemos como referência o próprio Museu Felícia Leirner, onde temos principalmente dois materiais distintos: o bronze e a argamassa armada. Sabemos que o bronze é um material estável, utilizado há séculos em locais com características ambientais diversas, e com procedimentos técnicos de fabricação e conservativos conhecidos. Já as obras em argamassas, por sua vez, foram executadas pela artista a partir de conhecimento empírico e utilização de materiais não convencionais para obras cuja finalidade é a exposição à intempérie (ferro de construção sem tratamento anticorrosivo; gesso, que é um material higroscópico etc.), o que requer a abordagem individual de cada obra, para identificação dos procedimentos, técnicas e periodicidade de intervenção.    

 

MFL: Qual é a importância, no seu ponto de vista, de conservarmos o nosso patrimônio material e, mais especificamente, a coleção pertencente ao Museu Felícia Lerner? 

Claudemir: A conservação do patrimônio material é fundamental para a preservação e renovação da identidade cultural de cada região e do pais, que é  a própria base da nacionalidade, aquilo que nos identifica enquanto povo. O Museu Felícia Leirner mantém não apenas a beleza das obras à disposição da população, como resguarda um momento extremamente significativo e rico da arte e da história paulista e brasileira.

Para concluir, vale reafirmar o compromisso institucional com a preservação do patrimônio artístico e cultural e relembrar a importância da adoção de procedimentos sistemáticos que envolvam, além de técnicos e especialistas, todas as equipes no objetivo comum de manter as coleções em perfeito estado de conservação, contribuindo assim para a preservação da nossa memória cultural, artística e histórica.

 

 

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