4º trimestre de 2021

O Museu Felícia Leirner é um museu a céu aberto, com um acervo permanente, contando com esculturas da artista em tamanhos que vão de meio metro de altura até quatro metros. As obras de Felícia, principalmente as que estão no percurso orgânico, chamam atenção por suas formas lúdicas e, por isso, são convidativas à interação. Fato é que, por ser um museu a céu aberto e não haver restrições de toque nas obras, há momentos em que estas interações se tornam ações antrópicas negativas, e é sobre essa limitação que este boletim de acervo abordará.

Ação antrópica é muito discutida em questão ao meio ambiente, sendo atitudes causadas exclusivamente pelo homem, que futuramente trarão algum tipo de malefício para as futuras gerações impactando diretamente em recursos que são finitos, como desmatamento, poluição, dentre outros. Esses projetos também podem realizar impactos positivos, como reflorestamento, tratamento de água, incentivo para educação ambiental, utilização de materiais biodegradáveis, uso de filtros em fábricas e muito mais. Em relação à arte, o recurso finito aqui discutido são as obras plásticas que expressam a relação do ser humano com a sua existência, registrando o mundo pela sua visão.

Quando as pessoas olham para obras de grande porte, imaginam que sua estrutura será forte, uma vez que o Brasil, hoje, segue um modelo de construção baseado na segurança gerada pela alvenaria. Sendo assim, quando se lê “cimento branco armado com ferro”, acredita-se em uma estrutura forte e resistente, desconsiderando que, no modelo de construção atual, há telhados que protegem sua estrutura e existem impermeabilizantes que a protegem de infiltrações do solo e, mesmo assim, são pedidas manutenções às estruturas de alvenaria de tempos em tempos. Vale ressaltar aqui que estas obras “executadas pela artista a partir de conhecimento empírico e utilização de materiais não convencionais para obras cuja finalidade é a exposição à intempérie (ferro de construção sem tratamento anticorrosivo; gesso, que é um material higroscópico etc.), o que requer a abordagem individual de cada obra, para identificação dos procedimentos, técnicas e periodicidade de intervenção.” (IGNÁCIO, Claudemir. Entrevista para o Boletim de Acervo Museu Felícia Leirner 1° Tri. 2017)

Ao permitir que o visitante tenha uma interação com a obra, tocando nela, cria-se um tipo de conexão e essa ganha um novo olhar do espectador. No entanto, existe uma linha tênue entre criar essa conexão ao tocar na obra, sentar-se, recostar-se ou até mesmo subir nela. Ao apoiar o corpo sobre a estrutura, que não foi feita para suportar o peso de uma pessoa, ela sofre um impacto negativo e isso pode provocar rachaduras internas que causam infiltrações futuras. Apoiar os pés, além de gerar este tipo de impacto, também suja a obra, e a constante manutenção para sua limpeza causa um círculo vicioso que altera sua integridade física ao longo do tempo.

Por isso, são importantes os questionamentos: até onde se pode interagir com as obras de forma saudável e ter essas experiências sem prejudicar o patrimônio das futuras gerações? Como realizar as ações antrópicas de forma positiva trazendo suas relações e experiências para o futuro?

É essencial, na perspectiva de Ana Mae Barbosa, segundo a qual “o conceito de mediação crítica em museus não se refere apenas a conhecer o que pensam os mediadores e educadores, mas também de saber que ações desencadeiam e quais as bases destas ações”, portanto, o contato do público com as obras de arte para que ocorra de forma saudável precisa de uma boa mediação. E aqui se destaca o trabalho educativo dentro do museu, que além de apresentar a comunicação da coleção para o público, também faz essa orientação para preservar o patrimônio sem prejudicar sua apreciação e sem criar riscos tanto para as obras quanto para o seu entorno, como: tocar nas obras, mas não subir, tirar fotos interativas, mas sem recostar ou pisar nelas.

Como ações preventivas, os cuidados constantes de monitoramento, estudos de conservação e higienização são essenciais para que a coleção permaneça por muitos anos. Outro exemplo é o trabalho dos jardineiros que mantêm a mata apartada das obras evitando a locação de animais silvestres, como o gramado junto a elas, por meio de limpezas que evitam sujidades como o barro. Se tratando de obras expostas ao ar livre, o acompanhamento com o seu entorno são essenciais para maiores controles preventivos. Também vale ressaltar o zelo ímpar dos vigias para com as obras e a preocupação constante deles, dando sugestões e ideias para que o trabalho de cuidado preventivo seja ainda mais eficaz. Para criar um público com um olhar atento e respeitoso com a arte e o meio ambiente, o trabalho é realizado por toda a equipe, independentemente de setor, com zelo para a coleção e possíveis tipos de riscos que podem ocorrer com as obras e seu entorno.

Faz parte dos valores da instituição a salvaguarda e a comunicação do patrimônio cultural e natural com responsabilidade e qualidade. A educação, em todos os sentidos, com certeza é o caminho mais saudável para a perpetuação do patrimônio e a difusão da história e do conhecimento. O ato de educar traz luz às consequências de atitudes que aparentemente inocentes podem destruir e depredar, e transforma essas atitudes em novas possibilidades de conservação.

Referências:

–   IGNÁCIO, Claudemir. Entrevista para o Boletim de Acervo Museu Felícia Leirner 1° Tri. 2017.

–   BARBOSA, Ana Mae. Mediação, medição, ação. Revista Digital Art&, São Paulo, v. 13, n. 17, p. 1-18, 2016.

– MUSEU FELICIA LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021. MUSEU FELICIA LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Programa de Acervo. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

– SÃO PAULO, GOVERNO DO ESTADO DE; PORTIVARI, ACAM – Documentação e Conservação de Acervos Museológicos – Diretrizes – São Paulo / Brodowski: 2010.

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