1° Trimestre

No primeiro boletim de 2021, destacaremos a técnica de cinzelamento que pouco foi aderida pela artista e a importância dos estudos e da conservação, mediante cada obra de acordo com suas necessidades específicas, além da conservação e estudo histórico da peça que incentiva a pesquisa científica dentro do ramo artístico e curatorial.

Considerada a quarta arte dentro das artes clássicas, a escultura é uma das expressões artísticas mais antigas da humanidade. Felícia a escolheu ou foi escolhida por essa arte como ela mesma dizia. Ao ser apresentada ao barro por Elizabeth Nobling, de quem se tornou grande amiga, aprendeu a dar formas as suas ideias modelando e transformando a matéria em suas criações. Mas o barro e a cerâmica eram pequenos ao tamanho de seus sonhos e sua fragilidade não correspondia às ambições artísticas.

Foi então que soube de um renomado artista que na época havia retornado da Europa e estava produzindo um monumento sob encomenda. Seu ateliê era gigantesco para comportar a encomenda feita, um local imensamente “sujo” e como diria o pintor e escultor Da Vinci (1998) que “um escultor tem um trabalho pesado e sujo que ao sair de seu ateliê se assemelha a um padeiro”. Chegou então aquela senhora de baixa estatura, alinhada com sua melhor roupa com um pedido para aprender a técnica para transformar seus grandes sonhos em realidade, imediatamente negado por Brecheret que disse não ser um trabalho para mulheres. Felícia na certeza de sua missão não desistiu ao primeiro não e recorreu, novamente, àquele homem que a aceitou como aluna e abriu um espaço a sua mais nova aprendiz e primeira estudante mulher.

Felícia, que até então havia aprendido a técnica de moldagem, iniciou no mundo da escultura aberta às novas experiências e iniciou o cinzelamento, que consiste na utilização da ferramenta cinzel (daí o nome da técnica), que juntamente a um martelo auxilia no desbaste da pedra e dá forma a obra. O cinzel existe em variadas formas e tamanhos facilitando o acabamento ou um corte preciso e profundo na peça. As obras que Felícia produziu foram feitas em granito, por ser uma rocha ígnea, permitindo uma variedade grande de acabamento.

As rochas ígneas são formadas pelo resfriamento e solidificação de massas subterrâneas que se fundem na aproximação com a superfície da Terra. A natureza química da massa, mais a taxa de resfriamento, determinam a natureza da formação rochosa. Massas de arrefecimento lento e em grandes profundidades geralmente formam as variedades de grãos grossos, como é o caso dos granitos.

Mesmo tendo uma grande gama de texturas, a técnica de esculpir em pedra é a única que não tem uma intervenção externa para produção (como a casa de fundição no bronze ou o auxílio nas grandes peças em cimento branco). A obra depende totalmente de seu escultor que precisa compreender as formas já lascadas na pedra para formar vincos e estruturar a figura, a famosa “Lei da Pedra”. Isso não impede um esboço no barro ou desenhos constantes como croquis, mas os cortes e as linhas na pedra devem ser estudados constantemente pelo escultor para que não seja modificada a sua criação inicial.

O espaço para a realização dessa técnica deve ser grande, pois o material não pode ser movimentado com grande frequência. Normalmente, como foi o caso de Brecheret, o ateliê deve ser móvel para que a peça seja finalizada no lugar onde ficará, evitando danos de transporte e compondo com a luz e ambiente finais. Pés de cabra e pedaços de madeira também costumam ser utilizados para auxiliar nas movimentações, caso algum acabamento não esteja ao alcance do artista.

Ao vencer a pedra, Felícia fez poucas obras neste material, sendo um dos mais pesados de se trabalhar. Auxiliou seu mestre em sua grandiosa encomenda, o Monumento às Bandeiras, e voltou para a técnica de moldagem aprendendo a trazer mais durabilidade às obras com o bronze. Assim, teve espaço junto ao ateliê de Brecheret que a reconheceu não somente como uma escultora, mas como uma verdadeira artista.

Hodiernamente no Museu, existem duas obras em Granito: a “Maternidade” (1952) e a “Figura Arcaica II” (1960), que apesar de serem feitas em um material considerado resistente precisam de olhares atentos quando se trata da conservação preventiva. Aqui damos destaque à Figura Arcaica, que já foi chamada de “Figura Arcaica I”, que sofreu um dano estrutural na parte superior, de acordo com relatos de antigos funcionários, uma queda de árvore causou o dano. A pedra é um material resistente mas que ao sofrer lesões, estes se tornam irrecuperáveis.

Em uma primeira intervenção, duas barras de ferro foram introduzidas e chumbadas dentro da parte inferior da obra com a intenção de se encaixar a parte superior danificada, dando a impressão de uma peça só, o que foi fatal pois a parte superior ficou solta e se perdeu. Quando a equipe de restauradores da empresa Julio Moraes veio ao museu, contratada pela ACAM Portinari, as barras foram cortadas rentes à escultura tomando o cuidado para que a mesma sofresse o mínimo de interferência possível. Assim ela vem sendo mantida, buscando trazer a história e conservando o patrimônio cultural.

Para um restauro e preservação adequados é imprescindível destacar alguns pontos, como corrobora Galdêncio Fidelis (2002):

“a) A importância de uma adequada documentação da obra; b) A importância de identificar a diversidade de materiais que compõem a obra e suas respectivas propriedades; c) A necessidade de preservar a intenção original do artista em um processo de conservação e restauração, tendo como perspectiva os procedimentos adotados; d) A necessidade da troca de informações entre artistas e profissionais especializados.”

Por muito tempo, diversas restaurações foram feitas pelo mundo de forma equivocada em diferentes épocas e, inclusive, atualmente. Por isso, destacamos a importância da preservação do patrimônio cultural e o avanço nesses estudos para que a memória e a perspectiva da artista, que foi a curadora de seu próprio museu, sejam preservados. 

Referências

–  VINCI, Leonardo. Tratado de Pintura, Editora Criativo, São Paulo – SP, 1998.

– FIDELIS, Gaudêncio. Dilemas da Matéria: Procedimento, Permanência e Conservação em Arte Contemporânea. Porto Alegre: Museu de Arte Contemporânea do RS, 2002.

–  GIOVANI, Giulia Villela. A Problemática Da Conservação – Restauração De Obras De Arte Contemporânea Produzidas Com Materiais Industriais. Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. Publicada na ANPAP 2015.

– MORAIS, Frederico. Felícia Leirner: a arte como missão. Campos do Jordão: Museu Felícia Leirner, 1991.

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