2º quadrimestre de 2022

O modo como os artistas absorvem as influências estéticas e anestéticas é muito complexo. Ele não é linear, direto e imediato. Implica em avanços e recuos, rompantes de adesão ou repulsa.

Frederico Morais, 1991.

A produção inicial de Felícia Leirner, na década de 1950, gira em torno das temáticas da mulher, da maternidade e do universo familiar, e revela afinidade com a obra de seu mestre, Victor Brecheret.

Além da técnica escultórica e da forma como construir a armação e a base das peças, Brecheret orientou Felícia na manipulação linear e ininterrupta dos volumes e equilíbrio das formas.

Procurando alcançar um vocabulário independente e inconfundível, a artista realizou pesquisas técnicas em torno da imagética tribal africana, das antigas estátuas do Egito, das artes etrusca e gótica, e da linguagem escultórica ocidental.

Enquanto Felícia aperfeiçoava a sua técnica, o cenário artístico brasileiro, principalmente no eixo Rio-São Paulo, buscava se aproximar das raízes culturais do Brasil, e promover a arte moderna, de caráter abstrato, com abertura para a arte internacional.

Como consequência desses esforços, foi criada em 1951, a I Bienal Internacional de São Paulo, organizada pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, com o objetivo de colocar as produções modernistas brasileiras em contato com a arte do resto do mundo.

A partir das Bienais, Felícia passa a ter um contato mais profundo com as formas e técnicas de outros escultores. Como elucidou o crítico de arte Frederico Morais em seu livro “Felícia Leirner: A arte como missão”:

“Tudo girava em torno da Bienal de São Paulo. Nela Felícia aprendia como que por osmose. Bastava-lhe a presença das obras. Era como se, através do que estava exposto na Bienal, ela participasse do fluxo maior da arte […]” (MORAIS, 1991. p. 17).

Pode-se perceber, ao longo de trinta anos de produção artística realizada por Felícia, o vaivém das tendências internacionais tal como elas se apresentaram nas Bienais.

Entre essas muitas linguagens escultóricas trazidas pelas Bienais, a curadora e jornalista Angélica de Moraes, destaca a influência do construtivismo do escultor franco-húngaro Nicolas Schöffer (1912-1992), e das formas angulosas semiabstratas de raiz construtiva e texturas metálicas rugosas presente nas peças do polonês Theodore Roszak (1907-1981) (GUINSBURG, 2014.p.130).

A artista, que realizava dentro de suas temáticas, figuras isoladas, passa a trabalhar com formas que se complementam. Os ângulos agudos e as linhas marcadas começam a aparecer em sua obra escultórica, e a ampliação da relação entre os espaços vazios e cheios vão aos poucos trazendo leveza em suas peças.

Em 1953, Felícia é aceita para participar da II Bienal Internacional de São Paulo, edição considerada a “maior exposição antológica da arte moderna”. Em 1955, não só participa da III Bienal Internacional de São Paulo, como recebe o Prêmio de Aquisição dado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A partir daí, a artista manteve um diálogo com as Bienais, participando das edições de 1959 e 1961. Em 1963, fase na qual a artista produz as peças mais abstratas de sua obra, recebeu o prêmio de melhor escultor brasileiro. Mereceu uma sala especial na Bienal realizada em 1965, e nos anos de 1967 e 1973, destacou-se com obras de grande porte.

“A Caminho da Abstração” é uma fase marcada pela indecisão em manter-se apegada a figura ou se aprofundar nas propostas da abstração informal. Felícia se preocupa em ferir o bronze a fim de criar novas texturas, e produz as primeiras peças horizontais, que acabam por construir uma poética subjetiva da artista. Por fim, esse longo trajeto de “avanços e recuos, rompantes de adesão ou repulsa” deságua nas séries “Cruzes” e “Estruturações”, na qual Felícia mergulha de vez na abstração. 

REFERÊNCIAS:

MORAIS, FREDERICO. Felícia Leirner: a arte como missão. Campos do Jordão: Museu Felícia Leirner, 1991.

GUINSBURG, J. Textos Poéticos e Aforismos. São Paulo: Perspectiva, 2014.

MUSEU FELÍCIA LEIRNER E AUDITÓRIO CLAUDIO SANTORO. Plano Museológico. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021. MUSEU FELICIA LEIRNER E AUDITORIO CLAUDIO SANTORO. Programa de Acervo. ACAM Portinari: Campos do Jordão, 2021.

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